Carta I — Você não precisa se sentir motivado para sair de casa

Caro jovem corredor,
talvez você já tenha vivido aquela situação curiosa em que passa parte do dia pensando que gostaria de correr mais e, justamente quando aparece a oportunidade de correr, descobre que gostaria mesmo era de fazer qualquer outra coisa.
O tênis está ali. O treino também. Você sabe exatamente o que deveria fazer. Talvez tenha até passado a manhã imaginando como seria bom voltar a treinar direito, melhorar aquele pace que anda meio esquecido ou finalmente construir uma sequência decente de semanas. Aí chega a hora combinada e surgem questões que, até poucos minutos antes, pareciam completamente irrelevantes. Será que não seria melhor descansar hoje? Será que essa dorzinha não merece atenção? E amanhã? Amanhã parece um excelente dia para começar, embora tenha uma reputação bastante injustificada entre corredores.
É curioso porque costumamos falar da corrida como uma coisa de que gostamos. E provavelmente gostamos mesmo. Escolhemos provas, compramos tênis, olhamos percursos, acompanhamos gente correndo, conversamos sobre corrida por um tempo muito maior do que pessoas que não correm considerariam socialmente aceitável. Mesmo assim, gostar de correr não significa necessariamente ter vontade de correr todas as vezes em que chega a hora de fazê-lo.
Demorei algum tempo para entender que as duas coisas podem existir juntas sem que haja nada especialmente estranho nisso. Talvez parte da confusão venha da ideia que construímos sobre motivação. A gente fala dela como se fosse uma espécie de autorização interna: primeiro aparece a vontade, depois você age. Quando a vontade não aparece, alguma coisa parece errada. “Estou desmotivado.” A frase quase sempre vem acompanhada de certa preocupação, como se tivéssemos perdido uma peça importante no caminho.
Só que a vontade é um negócio pouco confiável. Ela muda com o sono, com o trabalho, com o calor, com aquilo que aconteceu no dia anterior e, principalmente, com aquilo que está acontecendo na vida fora da corrida. Às vezes você continua querendo muito uma coisa e, ainda assim, sente cada vez menos disposição para fazer aquilo que teoricamente o levaria até ela.
Eu conheci melhor essa contradição recentemente. No último ano, minha vida mudou bastante. Na verdade, começou a mudar antes mesmo de minha filha nascer. A rotina que durante muito tempo comportou a corrida com alguma naturalidade começou a ficar mais apertada. Vieram outras prioridades, outros horários e uma quantidade de acontecimentos que não consultaram minha planilha antes de aparecer.
Fui correndo menos. Continuei participando de algumas provas por causa da minha parceria com a O2, então havia momentos em que eu colocava um número no peito e tudo parecia minimamente normal. Mas quem corre sabe que existe uma distância razoável entre fazer algumas provas e estar realmente treinando.
Também ganhei peso. E descobri algo que não chega a ser uma grande contribuição para a ciência do esporte: correr carregando alguns quilos a mais torna correr um pouco mais difícil. Os ritmos mudaram. O esforço mudou. Aquilo que antes parecia confortável começou a pedir uma conversa mais longa com as pernas e com os pulmões. O detalhe inconveniente é que minhas ambições esportivas não engordaram nem perderam condicionamento. Continuavam exatamente onde estavam.
Eu ainda queria correr melhor, melhorar tempos, voltar a treinar, descobrir até onde poderia chegar. O desejo de performance permaneceu surpreendentemente intacto durante um período em que a rotina necessária para buscá-la praticamente desapareceu. Acho que muitos corredores conhecem esse fenômeno: a cabeça mantém um condicionamento físico impressionante.
Só que havia outra coisa acontecendo: minha filha tinha chegado. E enquanto uma parte de mim sentia falta da corrida, outra estava vivendo o melhor momento da minha vida. Eu queria vê-la crescer, brincar com ela, fazê-la sorrir, estar presente para coisas aparentemente pequenas que, de repente, tinham se tornado muito maiores que qualquer treino.
Foi aí que a conta ficou interessante. Eu queria ter mais tempo para correr e, ao mesmo tempo, queria passar mais tempo longe da corrida. Sentia falta de treinar, mas não necessariamente queria trocar uma tarde com minha filha por um treino. Ficava incomodado por estar correndo menos e perfeitamente feliz com boa parte das coisas que estavam ocupando aquele espaço. As duas coisas eram verdadeiras.
Talvez você já tenha passado por algo parecido, mesmo que por razões completamente diferentes. Um trabalho novo. Um relacionamento. Um período difícil em casa. Uma lesão. Um curso que começou a exigir mais. Um filho. Ou simplesmente uma fase da vida em que aquilo que antes cabia com facilidade começou a disputar espaço com outras coisas.
Nessas horas, costumamos cometer uma pequena injustiça conosco. Olhamos para a pessoa que éramos antes e perguntamos por que a pessoa de agora não consegue fazer exatamente a mesma coisa. Antes eu treinava cinco vezes. Antes eu acordava cedo sem problema. Antes esse ritmo era fácil. Antes eu não faltava. O antes tem essa vantagem competitiva: ele já aconteceu. Está fechado, editado e convenientemente livre das dificuldades que provavelmente existiam quando era presente.
Aí você tenta recuperar aquela versão de si mesmo e percebe que ela não cabe mais tão bem na vida que tem hoje. Talvez seja aí que a motivação comece a parecer o problema, embora nem sempre seja. Às vezes você simplesmente está tentando encaixar um corredor antigo dentro de uma vida nova.
Hoje consegui abrir novamente algum espaço para correr. Tenho uma Maratona do Rio em 2027 no horizonte e, aos poucos, uma rotina de treinos começa a reaparecer. Isso não aconteceu porque acordei numa manhã especialmente inspirado, tive uma conversa definitiva comigo mesmo ou encontrei aquela motivação que supostamente estava perdida. A vida apenas começou a permitir outros arranjos. Eu também comecei a construí-los.
E mesmo agora há dias em que não quero treinar. Isso talvez seja uma notícia decepcionante se você esperava que a solução desta carta fosse aprender a recuperar a motivação. Não conheço essa solução. E desconfio de quem conhece.
O que sabemos é que comportamento e vontade não mantêm essa relação tão organizada quanto gostaríamos. Muitas vezes começamos sem vontade e a vontade aparece depois. Em outras, fazemos o treino inteiro sem que ela apareça em momento algum. Há também os dias em que decidimos não correr e, veja só, talvez essa seja realmente a melhor decisão.
O problema não é faltar vontade. Talvez o problema seja transformar cada oscilação dela em uma informação importante demais sobre quem você é. Um dia de preguiça não significa que você deixou de gostar de corrida. Uma semana ruim não diz necessariamente que você perdeu sua disciplina. Um período em que outras coisas ocupam o centro da sua vida também não apaga o corredor que existe ali.
E, ao mesmo tempo, ser corredor não exige que a corrida permaneça para sempre no mesmo lugar. Ela pode mudar de tamanho. Pode ocupar cinco dias da semana e depois ocupar dois. Pode ser performance durante alguns anos e simplesmente uma hora agradável em outros. Pode desaparecer por algum tempo. Pode voltar. Nada disso torna essa relação menos verdadeira.
Então, jovem corredor, quando chegar aquele dia em que o treino estiver marcado e você não sentir absolutamente nada parecido com vontade de fazê-lo, talvez não seja necessário organizar uma reunião extraordinária consigo mesmo. Veja o que está acontecendo. Veja como anda sua vida. Talvez você esteja apenas com preguiça. Talvez esteja cansado. Talvez haja alguma coisa muito melhor esperando por você naquela tarde.
E talvez você coloque o tênis mesmo assim, não porque a motivação finalmente apareceu, mas porque às vezes ela só chega depois que você já saiu de casa.